Preços do trigo encerram 2019 próximos dos patamares praticados em janeiro

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     Porto Alegre, 27 de dezembro de 2019 – Os preços do trigo brasileiro encerram 2019 com preços próximos dos praticados no início deste ano. As cotações, porém, oscilaram bastante ao longo da temporada, e vinham operando abaixo dos referenciais atuais. Segundo o analista de SAFRAS & Mercado, Jonathan Pinheiro, o principal fator para isso foram justamente as indicações de problemas relacionados ao clima desfavorável, ao longo da safra nacional, prejudicando tanto a qualidade quanto a produtividade do grão.

     O cenário internacional também foi importante responsável pela recuperação dos preços ao longo do ano. A instabilidade comercial entre Estados Unidos e China provocou volatilidade cambial e apreensão em torno dos preços de referência na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT). Mais recentemente, o mercado brasileiro começou a projetar as mudanças políticas na Argentina, que devem impactar o estímulo à produção do cereal no país vizinho a partir do ano que vem.

     Em Chicago, os contratos iniciaram o ano com valores próximos aos praticados atualmente, entretanto, fatores como a oferta mundial e a guerra comercial trouxeram fortes oscilações. A partir de fevereiro, o mercado sofreu queda acentuada, chegando a atingir preços significativamente reduzidos, acompanhada de uma recuperação entre os meses de maio e junho. “Esta recuperação foi proporcionalmente acentuada, mais que compensando as retrações do período anterior”, disse Pinheiro.

     Dentro de um cenário de preços mais elevados, o mercado voltou ao movimento de queda acentuada, que se estendeu ao longo de todo terceiro trimestre do ano. A partir do quarto trimestre do ano, o mercado voltou a reagir, chegando aos patamares atualmente negociados.

     Ainda mais importante para a comercialização do trigo brasileiro foi o câmbio. O dólar sofreu grande volatilidade ao longo do ano. “Apesar disso, a taxa cambial se aproxima do encerramento do ano com cotação significativamente mais elevada ao início do período, momento no qual se encontrava a R$ 3,8110. Atualmente o câmbio tende a fechar o ano ainda abaixo dos R$ 4,10, porém, a apesar das oscilações, a partir de agosto se firmou acima dos R$ 4,10, ficando boa parte do período entre agosto e dezembro inclusive acima dos R$ 4,15, atingindo máximas históricas”, analisou Pinheiro.

     O câmbio leva a grandes alterações na conjuntura do mercado tritícola brasileiro, com elevação das paridades de importação, aumentando o custo de aquisição do produto no mercado internacional e abrindo espaços para recuperações do trigo doméstico. “Outra consequência é a possível redução do volume de importações, buscando alternativas para suprir a demanda com o próprio cereal nacional, dentro do possível, ou aquisições em mercados alternativos ao argentino, principal fornecedor de trigo ao Brasil”, lembrou.

     Ao longo dos meses de janeiro e novembro deste ano, foram importadas 5,919 milhões de toneladas de trigo, contra 6,164 milhões de toneladas no mesmo período do ano anterior. Uma redução de 4%, ainda sutil tendo em vista a elevação cambial. Porém, se tratando do período comercial, que inicia em agosto, nos quatro primeiros meses do ano comercial 2019/20 foram importadas 2,032 milhões de toneladas, ou pouco menos de 200 mil toneladas a menos que no mesmo período do ano comercial 2018/19, significando uma redução de mais de aproximadamente 8%.

     Em relação às exportações, o Brasil não apresentou volumes significativos, com somente 75 quilos escoados entre agosto e novembro deste ano comercial, e não havia apresentando nenhum volume de exportação no mesmo período do ano comercial anterior. Já para o período de janeiro a novembro de 2018 foram exportadas 165 mil toneladas, contra 526 mil toneladas no mesmo período de 2019. Um crescimento de mais de 200%, resultado tanto de uma cotação cambial em alta, favorecendo o mercado externo diante do interno, além de uma produção mais elevada de trigo de baixa qualidade, que não apresenta demanda por parte da indústria nacional.

     Acompanhando os fatores acima, a safra brasileira foi prejudicada por geadas que trouxeram danos as lavouras, dificultando o desenvolvimento destas. Mais recentemente, no período de colheita, um período chuvoso atingiu diversas regiões produtoras, tanto no estado do Paraná, maior produtor nacional, como no Rio Grande do Sul, segundo maior produtor. “Este fator levou a novos danos, tanto de qualidade como de produtividade, porém, este último em menor intensidade, representando maioritariamente uma produção de menor qualidade. Este quadro potencializou o viés de alta, mesmo com a colheita em andamento, favorecendo a recuperação das cotações mesmo com o ingresso de oferta no mercado interno”, comentou Pinheiro.

     Para a próxima temporada, o analista projeta que boa parcela deste trigo de qualidade inferior poderá ser escoada para o mercado externo, ou servir de alternativa para os moinhos nacionais, frente ao cenário de custos elevados para importações. “Um maior volume de trigo de qualidade inferior na mescla da produção da farinha minimizaria a necessidade de importações, ao menos no curto prazo. O viés de preços, tende a seguir em alta, devido a uma produção abaixo da esperada, acompanhada de um câmbio ainda relativamente elevado, apesar das recentes retrações neste encerramento do ano”, finalizou.

     Gabriel Nascimento (gabriel.antunes@safras.com.br) / Agência SAFRAS

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