Café caiu mais de 20% em NY em janeiro com oferta e coronavírus

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     Porto Alegre, 31 de janeiro de 2020 – O mercado internacional do café, balizado pela Bolsa de Mercadorias de Nova York (ICE Futures US) para o arábica, teve um mês de janeiro de queda livre nos preços. O sentimento de maior tranquilidade na oferta global e o advento do coronavírus derrubaram as cotações do arábica e pressionaram o mercado brasileiro.

     Segundo o consultor de SAFRAS & Mercado, Gil Barabach, os fundamentos induziram correções, depois dos exageros de alta nos preços de dezembro, quando o arábica na Bolsa de NY chegou a atingir um pico de US$ 1,42 a libra-peso. Barabach indica que a melhora no ritmo dos embarques de arábicas suaves (Colômbia e América Central) e a maior agressividade nas vendas de robusta do Vietnã trouxeram alívio aos consumidores. E a indústria mundial está bem comprada de Brasil, o que também acaba pesando contra os preços, comenta.

     “É bom lembrar que o país embarcou no último ano e meio cerca de 62 milhões de sacas de café (42 milhões na temporada 2018/19 e mais 20 milhões de sacas na primeira metade da temporada 2019/20 – julho a dezembro de 2019). E olhando para frente o mercado espera uma nova safra recorde no Brasil em 2020”, comenta. A corretora e exportadora Comexim nesta última semana estimou que o Brasil produzirá o recorde de 67,7 milhões de sacas de café de 60 kg este ano, com incremento de 19,2% ante as 56,8 milhões de sacas em 2019 e contra o recorde anterior de 64,5 milhões de sacas em 2018.

     Depois do ajuste inicial em janeiro, o arábica nova-iorquino ficou mais vulnerável a outros mercados. “Agora fraqueja diante do pessimismo causado pela propagação do coronavírus”, adverte Barabach. Ele explica que, a exemplo do Sars, o coronavírus tem implicações negativas sobre a economia chinesa e mundial, o que mexe negativamente com os mercados globais, especialmente as commodities. Petróleo e o índice de commodities CRB recuam, e puxam de arrasto o café para baixo, pondera. “Em 2008 o Sars levou a uma queda no PIB chinês de 2 pontos percentuais. As ideias preliminares para 2020 é que o coronavírus derrube o PIB chinês entre 0,1% a 0,5%, com mais pessimistas falando em até 1,2%. Um cenário muito aberto e indefinido. Em todo caso, há alguma implicação negativa sobre a economia chinesa e mundial, elevando a cautela e o movimento de aversão ao risco, o que favorece o dólar e joga contra as ações e commodities”, avalia o consultor.

     No balanço mensal de janeiro até o dia 30, o contrato março do café arábica em Nova York acumulava uma baixa de 21,7%, tendo caído de 129,70 centavos de dólar por libra-peso (fechamento de 31/12/2019) para 101,50 centavos. E desde o topo de US$ 1,42 a libra-peso de meados de dezembro, NY acumulou perdas de 28,5% até 30 de janeiro. E flertando com a perigosa linha psicológica de 100 cents, como destaca Barabach. “O mau humor dos mercados tirou a posição março/20 do intervalo entre 110 a 115 cents e trouxe para próximo de 100 cents, com chance de rompimento dessa importante referência, caso a epidemia continua avançando rapidamente. Por um lado, um sinal de controle do vírus deve trazer normalidade aos mercados, o que ajudaria o café a reagir, levando o mercado a convergir em direção ao patamar de equilíbrio anterior”, estima.

     No mercado físico brasileiro, as cotações voltaram a cair, acompanhando o tombo na ICE. O arábica duro com 15% de catação no Sul de Minas recuou a R$ 450,00 a saca na base de compra nesta quinta-feira, dia 30, acumulando uma queda de 14,3% em janeiro, já que fechara dezembro a R$ 525,00 a saca. Com as perdas, o mercado travou, com compradores e vendedores mais distantes, o que dificulta as negociações. A alta do dólar, que acumulou até o dia 30 valorização de 6,1% em janeiro, saindo de R$ 4,014 para R$ 4,26 no comercial, atenuou ao menos um pouco o tombo de NY.

     O conilon tipo 7, em Vitória/Espírito Santo, caiu em janeiro bem menos, de R$ 300,00 a saca para R$ 295,00 (-1,7%). Refletiu, em parte, que o robusta no mercado internacional caiu bem menos que o arábica em NY ao longo deste mês. O robusta na Bolsa de Londres no contrato março baixou de US$ 1.382 a tonelada para US$ 1.304 ao longo de janeiro, até o dia 30, acumulando queda de 5,6%.

     Lessandro Carvalho (lessandro@safras.com.br) / Agência SAFRAS

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